sexta-feira

Felicidade - Saudade - Mistério OU As três notas

três mulheres adentraram minha imaginação.
três figuras femininas que como personagens
me entoam canções e versos...

a primeira, chama-se Felícia.
é apaixonada pelas cores vermelha e verde desde que assistiu O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain.
depois disso, Felícia, simples e amável, passou a ter conversas com as estrelas...
repartiu comigo as dores e alegrias muito próprias de sua idade
e partiu em busca de aventura.

a segunda é Sofia.
particularmente discreta, quase não fala, faz rabiscos e usa o que tiver à mão para expressar qualquer emoção - tinta, folha, café, casca de pão, de parede, botões, tecidos.
Sofia teve um único amor na vida. só um.
um dia, teve de se despedir e desde então, vive no alto de uma montanha, num lugar tão longe que nem nome tem...

a terceira atende por Melina.
tem um filho e uma filha.
ama vestidos. 
nunca usou uma calça na vida e coleciona retratos de seus amores.
não possui diploma algum, mas sempre estudou. gosta de nutrição e literatura.
Melina casou-se e separou-se muito cedo.
vive e trabalha em qualquer lugar onde haja sol e mar.
lê para os filhos toda noite e mantém um ritual secreto: escreve em dois diários todos os sentimentos, lembranças e desejos acerca dos filhos, para um dia entregar-lhes quando completarem 18 anos.

Felícia hoje encontra-se no Chile.
trabalha numa escola infantil como contadora de histórias e estuda educação ambiental.
tem um namorado com quem pretende ter três filhos.
mas não quer casar.

Sofia conheceu Fernando aos 17 anos.
apaixonou-se para sempre...
viveram um amor durante quatro anos.
quando acabou, Sofia continuou apaixonada.
se amam de longe e em pensamento, ela na montanha, ele em todos os becos...

Melina por sua vez, foi arrebatada por um amor inesperado...
vivem em alguma cidade do Nordeste.
até hoje só usa vestidos.
os diários para Lia e João,estão quase finalizados.

Enquanto isso,
o sol desponta na boca do céu...

segunda-feira

A porra toda

Prelúdio noturno. Embriaguez e leveza.
Um beijo.

Dia seguinte: já saudade.
Três dias depois: o primeiro sinal errado...

Uma semana depois: mácula.
Um mês: história sem fim.

Dois meses: o amor pode ser um jardim inteiro de cactos.

Três meses: o mar abençoa o amor.


Depois do fim: o túnel escuro. inverno-interno. rabiscos. passeios. versos.

só acaba quando chega ao fim
só chega ao fim quando termina...
ainda estamos nus ao vento
e ainda tem aquela pausa na voz


ah! e tem saudade... 
o indício crucial
de que 
o que terminou,
foi eterno...

Seis meses depois:
recolhe-se o que sobrou dos rituais da dor
e compõe-se um memorial

Tudo se transforma em trampolim 
para resignificar a porra toda.

Daí em diante, apenas o silêncio torna-se amigo fiel e verdadeiro.

Todo adeus é provisório, portanto, todo adeus é ilegítimo.

Ao despedir-se de um amor, tenha-se em conta: o melhor está sempre por vir...

assim,

despeço-me, sem me despedaçar.



Após: 
bocejo. quarto limpo. cadernos editados.

o mar abençoou
e lavou
levando pro seu mistério
a dor que não cabe na terra deste coração.

quarta-feira

Clarissa da janela

torta.desencaixada.
esgueirada pela pressa.

sonora.inquieta.vulcânica.
atirada aos desertos sem travessia.

absorta.entregue.triste.
cicatrizada e revestida de fé.

unhas cortadas e limpas.
pés e tornozelos esfoliados.
dentes à mostra.

anéis. cachecóis.batons.
pele sem perfume.
uivo e espera.

desprezo e destino.
revelação. elevação.
cálculo. pulo. pouso.

prato cheio
garfo grande
fome e vontade de comer.

tesão.desejo.beijo.coração
explodiu tudo
caiu em tentação.

consciente
com certeza


na esquina, um homem toca violino...

terça-feira

Bahia

se a Bahia tem um jeito,
o espírito, ainda que santo,
tem jeito de pecado,
um jeito nosso que é de ser e de estar,
em qualquer lugar

nosso norte é um vento sem bússola...

Porque o sorriso é a única incompletude que satisfaz,
já que se esperam sempre outros mais
Porque calor e amor não rimam á toa
Porque banho não lava só o corpo
e sal não tempera só comida
Porque amizade é uma união
em comunhão de bens espirituais
Porque só se faz o caminho andando
Porque sol e lua se revezam enquanto os copos se esvaziam
Porque música e dança ritualizam a vida
fome e sede sempre vêm de dentro seja para o que for
a ciranda existe e resiste nas pernas de Luísa


Porque saudade sempre fica depois que vai
Porque viajar não é sair
é entrar
Porque ir embora não significa dizer adeus...

[2011-2012]



O Centauro e o Escorpião.





Alexandre, o rei, tronou-se e tornou-se flor.
Semeou: sóis, luas, ventanias, tempestades.

Já o Alexandre príncipe, preferiu ser deserto, e continua misterioso

para quem não arrisca a queimar-se em seu solo sagrado.

O rei, 

disse que se alguém vai, que vá para aprender
que se encontre,
enquanto se perde...

O príncipe,

fez mais de uma promessa,
e nunca as cumpriu
não disse porque
nem desdisse

hoje há uma rainha no jardim

onde Aleteia, a pequena escultura
sinaliza que
aqui se ama, aqui se purifica

no castelo, há regras para não serem cumpridas

a coroa, nem de ouro, nem de prata
sinaliza que
há tinta, vento e verso
arquitetando e sustentando
a (r)existência

então Alexandre

o rei centauro
e o príncipe escorpião
tronam-se um só
e tornam-se
um capítulo (1)'nico: nada mais útil do que o silêncio

Aleteia observa atenta

os heróis desatentos da constelação...

Hoje

fazer hoje


apanhar sementes da manhã
lançar no terreno fértil da alegria 


abraçar o vento, beijar a lua e transar com o universo


escrever o capítulo
dizer o sim
alongar os músculos
exercitar a paciência
embalar aquele presente


virar a página ou queimar de vez o livro


tomar sol num gole só
grafitar a parede da dúvida
fotografar o vazio que abriga a fé


aquietar as fúrias calamitosas
uivar e gozar
dançar e cantar
cirandar e celebrar


hoje: 
viver o hoje.

segunda-feira

desperta-dor

eu estava presa num pesadelo.
e estou acordando dele...

estupefata, dei-me conta de que me estagnei completamente no amor
fiquei à espera de um milagre, de uma gota de certeza
e passei três anos dentro de uma caverna, lamentando uma perda que nunca houve de fato...

é tanta coisa dentro do peito 
tanta ficha caindo
que  é quase impossível colocar em palavras
isto daqui é só um começo desse exercício...

não tenho um pingo de pena de mim
não me sinto vítima
nem carrasca
não tenho o poder de mudar o que houve, o que fiz
errei tanto quanto erraram comigo
olhei para estes erros, os meus e os deles, o dele...
larguei a dor
ela me perseguiu ainda
vociferei
lati
uivei
e chorei muito
porque chorar me dá a força necessária para continuar

se não chorasse, talvez a esta altura, estivesse doente da alma
cada lágrima importou
cada aperto e cada angústia
cada verso
cada silêncio

agora, saindo do pesadelo, consigo ver minhas cicatrizes
oh zeus, como estou marcada...
vou-me lembrando onde adquiri cada uma
e já nem penso em escondê-las
são parte de mim

esta sou eu, agora
saindo da caverna
suja
pálida
com cortes e arranhões
acordando do pesadelo

até que o dia de amanhã nasça
eu estarei de pé
e sim
estarei viva...

para contar esta longa história
e morrer em paz.