sábado

GAIOLICE I


GAIOLICE = Gaiola + Tolice, surge a partir de um sentimento de amor que por sua vez fez surgir a necessidade de um ato artístico, que é de amor também, mas em outra dimensão, em outra esfera de esperanças e ardores no peito.
O termo foi inventado para traduzir meu sentimento por alguém, mais precisamente para associar meus versos de amor a uma única pessoa. 

Invenção a partir de um objeto

Uma casa velha, abandonada que estava com uma placa de VENDE-SE.
Reparei na varanda: havia uma gaiola mal pendurada e aberta, meio quebrada e tão abandonada quanto a casa. Me tocou aquela imagem.
Inventei uma história prá gaiola...

A gaiola lá, intacta, guardando uma história triste e bonita, porque dizia um amigo meu que a tristeza é bonita: “É bonito porque é triste...” Era assim que ele dizia... O nome dele é Rangel.


Depois da invenção, uma reinvenção

Gaiolas guardam histórias, palavras que não foram ditas.
Meses se passaram e eu continuava a escrever.
Tudo cronologicamente bagunçado e desordenado feito meu coração.

Então numa tarde, comprei uma gaiola.
Cheguei em casa tirei todos os seus aparatos e fui simplesmente abrindo as gavetas, os cadernos, as agendas e a caixa de papelão e sem olhar aqueles versos fui enfiando gaiola adentro...
Pendurei na parede. 
Ela ficou lá por um ano e pouco...

A gaiola das cartas, dos pensamentos era a minha própria personificação. Eu era aquela gaiola. Abri-la significava literalmente abrir meu coração e ver/ler o que eu sentia...
Decidi que teria de entregar a gaiola ao destinatário das cartas. 

A entrega

No dia de seu aniversário.
Saí do trabalho, peguei o metrô e ainda ali, escrevi a última gaiolice. 
Cheguei na frente da casa, começou a chover, me atendeu uma moça que foi simpática e solícita, tomamos café com Nutella.
Agradeci o café á moça. A chuva passou. Fui andando pela rua sentindo alívio e vazio ao mesmo tempo. 
Acendi um cigarro, dois, três, até o ônibus chegar.
Fui embora.