terça-feira

Nenhum janeiro por aqui

Nenhum janeiro por aqui...
Foi-se a água do silêncio, restaram gotas de palavras, desconexas e impertinentes.
Nenhum janeiro por aqui...
Todos os dias quentes fizeram surgir suores doces e ardidos.
Pudemos nas ruas fotografar pernas e óculos,
Usar batom colorido e flores nos cabelos,
Pudemos ser um personagem sem papel
E tomar sorvete como crianças: sem vontade de parar!

O janeiro passou e ainda há o velho jogo de crenças
As mortes continuam na TV, assustam.
Os amores do passado, assustam.
Os aumentos tarifários, revoltam.

Nenhum janeiro por aqui...
Nas linhas da poesia composta num breve café da manhã
Restam tinta fraca, cabelo caído de estresse e casca de pão
Uma música chata que o vizinho insiste em compartilhar
Comida na geladeira da semana passada
E resto de vinho na garrafa, de ontem...

Já foram contados os dias desse janeiro
Ele não existiu aqui
Só mesmo uma página no calendário
Protocolo.
Ano do coelho, fertilidade e profusão

Nenhum janeiro por aqui
Tudo continua
Confusão...