terça-feira

Gaiolice alheia...



Almoço. Passei pela Praça da Sé e avisto uma gaiola pendurada numa árvore.
Não me contenho e obviamente me aproximo.
Ao lado uma moça simpática fazendo origamis.
Pergunto do que se trata, ela diz:
- É uma troca. Vc abre a gaiola e diz um sentimento, fecha a gaiola e em troca eu te dou uma carta em forma de origami.
Eu digo:
- Que lindo...
Vou lá, abro a gaiola e digo meu sentimento.
Ela me entrega meu origami e me explica que esta gaiola será levada ao topo de uma montanha e lá, será aberta para libertar essas palavras...
Onde? Nos Andes!
Falo rapidamente da minha "Gaiolice" e ela gosta da história...
Seu nome é Marina Weis e ela fez meu dia mais poético...

Agora eu penso: se desfizer o origami posso ler a carta, mas perco a forma... Se deixá-lo intacto, não saberei que palavras estão ali e o que elas podem me dizer...
Trata-se então de lidar com uma vontade que passa pela decisão do sim ou não, talvez aqui não cabe...

As gaiolices não terminarão... Enfim.

sábado

GAIOLICE I


GAIOLICE = Gaiola + Tolice, surge a partir de um sentimento de amor que por sua vez fez surgir a necessidade de um ato artístico, que é de amor também, mas em outra dimensão, em outra esfera de esperanças e ardores no peito.
O termo foi inventado para traduzir meu sentimento por alguém, mais precisamente para associar meus versos de amor a uma única pessoa. 

Invenção a partir de um objeto

Uma casa velha, abandonada que estava com uma placa de VENDE-SE.
Reparei na varanda: havia uma gaiola mal pendurada e aberta, meio quebrada e tão abandonada quanto a casa. Me tocou aquela imagem.
Inventei uma história prá gaiola...

A gaiola lá, intacta, guardando uma história triste e bonita, porque dizia um amigo meu que a tristeza é bonita: “É bonito porque é triste...” Era assim que ele dizia... O nome dele é Rangel.


Depois da invenção, uma reinvenção

Gaiolas guardam histórias, palavras que não foram ditas.
Meses se passaram e eu continuava a escrever.
Tudo cronologicamente bagunçado e desordenado feito meu coração.

Então numa tarde, comprei uma gaiola.
Cheguei em casa tirei todos os seus aparatos e fui simplesmente abrindo as gavetas, os cadernos, as agendas e a caixa de papelão e sem olhar aqueles versos fui enfiando gaiola adentro...
Pendurei na parede. 
Ela ficou lá por um ano e pouco...

A gaiola das cartas, dos pensamentos era a minha própria personificação. Eu era aquela gaiola. Abri-la significava literalmente abrir meu coração e ver/ler o que eu sentia...
Decidi que teria de entregar a gaiola ao destinatário das cartas. 

A entrega

No dia de seu aniversário.
Saí do trabalho, peguei o metrô e ainda ali, escrevi a última gaiolice. 
Cheguei na frente da casa, começou a chover, me atendeu uma moça que foi simpática e solícita, tomamos café com Nutella.
Agradeci o café á moça. A chuva passou. Fui andando pela rua sentindo alívio e vazio ao mesmo tempo. 
Acendi um cigarro, dois, três, até o ônibus chegar.
Fui embora.





terça-feira

Nenhum janeiro por aqui

Nenhum janeiro por aqui...
Foi-se a água do silêncio, restaram gotas de palavras, desconexas e impertinentes.
Nenhum janeiro por aqui...
Todos os dias quentes fizeram surgir suores doces e ardidos.
Pudemos nas ruas fotografar pernas e óculos,
Usar batom colorido e flores nos cabelos,
Pudemos ser um personagem sem papel
E tomar sorvete como crianças: sem vontade de parar!

O janeiro passou e ainda há o velho jogo de crenças
As mortes continuam na TV, assustam.
Os amores do passado, assustam.
Os aumentos tarifários, revoltam.

Nenhum janeiro por aqui...
Nas linhas da poesia composta num breve café da manhã
Restam tinta fraca, cabelo caído de estresse e casca de pão
Uma música chata que o vizinho insiste em compartilhar
Comida na geladeira da semana passada
E resto de vinho na garrafa, de ontem...

Já foram contados os dias desse janeiro
Ele não existiu aqui
Só mesmo uma página no calendário
Protocolo.
Ano do coelho, fertilidade e profusão

Nenhum janeiro por aqui
Tudo continua
Confusão...