quinta-feira

Ex-ilhada

Quando eu estava naquele lugar dentro de mim sabia que algo estava absurdamente errado.
Entrei em contato com as minhas mais terríveis convicções, calculei sensorialmente e detectei os desencontros, sabia que era um momento único e por isso não podia fechar os olhos e tentar acordar, porque não era um sonho, era um encontro comigo mesma e que tinha de enfrentar todo o meu medo do medo...
Amar alguém que não me ama, não fazer o que quero (e o que quero de fato?), não ter realizado boa parte dos sonhos e desejos que todos temos, não saber o que fazer, como fazer, enfim, não saber.
Porque era isso, perdida em mim, ilhada em frustrações, derrotas e todos os nãos que formaram uma cerca entre eu e o mundo, o outro, a vida...
Isso estava errado, está errado, por que quem disse que eu acordei? Eu estou aqui com todas estas coisas ainda, mas elas próprias me pedem que eu as destrua, e eu acordo pensando em cada coisinha que pode ser feita, minha idéia é a da construção, mas penso que para construir algo devo destruir algo maior, o meu predador invisível...
E o peso do possível acumula sensações “mal-vindas”, mas o que é possível para o mal é também para o bem, então por que me preocupar com os medos, com as tristezas, com o amor não correspondido, com o dinheiro que nunca dá, com as viagens que nunca fiz?
Nada adiantará.
Saio da ilha, vejo um mar de possibilidades, tenho medo, fecho os olhos, sei que preciso sair, nadar, enfrentar a tempestade das incertezas, a escuridão da solidão. Sei que qualquer lugar longe dali deve ser melhor.
Mergulho fundo nesse mar, a princípio de olhos fechados, ainda há o medo mais humano de todos: morrer assim, sem realizar algo realmente importante (qual é o parâmetro?)
Ainda é escuro, silencioso e frio.
Mas começo a me impulsionar, não volto nunca mais áquele lugar e portanto, a força terá de vir de onde for para continuar. E eu continuo.
Falta o ar, nunca a lembrança. Sobra esperança. Reserva de humor (do bom, claro) e uma leve pitada de indiferença com as chatices alheias.
Agora é o seguinte: tem uma ilha fora da mulher, tem uma mulher fora da ilha.
Uma mulher que se redescobre e toma ar para que não falte vida, coragem e que os sonhos não se afoguem...
Protegida pela fé e pelo amor no qual nunca deixou de acreditar, ela segue ainda frágil, ainda tem gosto de mar na boca, ainda sente dores das braçadas, mas sabe perfeitamente que este lugar é um caminho com volta...

Eu sei que não volto. Não me deixo mais ir ao limite que conheci através da dor. Quero é que todos os predadores lá viventes venham até mim que eu lhes mostrarei do que sou capaz com um sol e uma lua ao meu dispor...

A ilha é invisível, o predador também, eu bato o pé no chão e solto uma espécie de uivo, ele vem ao me encontro, tenho medo de olhar, mas encaro com o coração pulando, meu som ecoa, meus pêlos eriçam, o vento me acaricia, atenta e sorridente vejo a ilha afundar em si mesma e vejo o predador em silêncio a me olhar com desprezo, sorrio ainda mais, a lua me ajuda a me tornar mais selvagem. Em instantes apenas o som do vento ecoa, e um silêncio invade o lugar deserto dentro de mim.
Hora de cultivar frutos nesse terreno.

Ex-ilhada, volto ao espelho para olhar toda minha nudez de mulher e me sinto mulher, nem melhor, nem pior, me sinto eu mesma...

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