quarta-feira

O que seria do poema sem a dor?

A dor comove, dilata e enobrece
Compõe o poema, a música, o olhar

A dor fratura a esperança
Congela a tristeza
Apalpa o ódio
Espia a morte...

A dor de um poema...

Escreve na palma da folha
Um livro de mágoas
Adentra no poro, na fibra da unha
Dilui no sangue, na raiz da pálpebra
o choro inevitável...

A dor vaga no corpo, na casa
Espanta a luz da manhã
E o viço da lua...

A dor desconcentra, desconcerta
Desespera, desarruma.

A dor fuma o pulmão
Cansa os pés, as mãos
Molha e absorve
Deixa ficar essa letra
Esquecida na gaiola...

Quantos poemas essa dor vai compor?
Quanto tempo para o fim dessa dor?


quinta-feira

Ex-ilhada

Quando eu estava naquele lugar dentro de mim sabia que algo estava absurdamente errado.
Entrei em contato com as minhas mais terríveis convicções, calculei sensorialmente e detectei os desencontros, sabia que era um momento único e por isso não podia fechar os olhos e tentar acordar, porque não era um sonho, era um encontro comigo mesma e que tinha de enfrentar todo o meu medo do medo...
Amar alguém que não me ama, não fazer o que quero (e o que quero de fato?), não ter realizado boa parte dos sonhos e desejos que todos temos, não saber o que fazer, como fazer, enfim, não saber.
Porque era isso, perdida em mim, ilhada em frustrações, derrotas e todos os nãos que formaram uma cerca entre eu e o mundo, o outro, a vida...
Isso estava errado, está errado, por que quem disse que eu acordei? Eu estou aqui com todas estas coisas ainda, mas elas próprias me pedem que eu as destrua, e eu acordo pensando em cada coisinha que pode ser feita, minha idéia é a da construção, mas penso que para construir algo devo destruir algo maior, o meu predador invisível...
E o peso do possível acumula sensações “mal-vindas”, mas o que é possível para o mal é também para o bem, então por que me preocupar com os medos, com as tristezas, com o amor não correspondido, com o dinheiro que nunca dá, com as viagens que nunca fiz?
Nada adiantará.
Saio da ilha, vejo um mar de possibilidades, tenho medo, fecho os olhos, sei que preciso sair, nadar, enfrentar a tempestade das incertezas, a escuridão da solidão. Sei que qualquer lugar longe dali deve ser melhor.
Mergulho fundo nesse mar, a princípio de olhos fechados, ainda há o medo mais humano de todos: morrer assim, sem realizar algo realmente importante (qual é o parâmetro?)
Ainda é escuro, silencioso e frio.
Mas começo a me impulsionar, não volto nunca mais áquele lugar e portanto, a força terá de vir de onde for para continuar. E eu continuo.
Falta o ar, nunca a lembrança. Sobra esperança. Reserva de humor (do bom, claro) e uma leve pitada de indiferença com as chatices alheias.
Agora é o seguinte: tem uma ilha fora da mulher, tem uma mulher fora da ilha.
Uma mulher que se redescobre e toma ar para que não falte vida, coragem e que os sonhos não se afoguem...
Protegida pela fé e pelo amor no qual nunca deixou de acreditar, ela segue ainda frágil, ainda tem gosto de mar na boca, ainda sente dores das braçadas, mas sabe perfeitamente que este lugar é um caminho com volta...

Eu sei que não volto. Não me deixo mais ir ao limite que conheci através da dor. Quero é que todos os predadores lá viventes venham até mim que eu lhes mostrarei do que sou capaz com um sol e uma lua ao meu dispor...

A ilha é invisível, o predador também, eu bato o pé no chão e solto uma espécie de uivo, ele vem ao me encontro, tenho medo de olhar, mas encaro com o coração pulando, meu som ecoa, meus pêlos eriçam, o vento me acaricia, atenta e sorridente vejo a ilha afundar em si mesma e vejo o predador em silêncio a me olhar com desprezo, sorrio ainda mais, a lua me ajuda a me tornar mais selvagem. Em instantes apenas o som do vento ecoa, e um silêncio invade o lugar deserto dentro de mim.
Hora de cultivar frutos nesse terreno.

Ex-ilhada, volto ao espelho para olhar toda minha nudez de mulher e me sinto mulher, nem melhor, nem pior, me sinto eu mesma...

domingo

Saramago sara o âmago


Aprendi a palavra “tertúlia” com o Saramago, e também aprendi que somos insignificantes e imprescindíveis na mesma proporção...

Saramago sara o âmago porque nos coloca em contato com a febre do vício, da falha, da cegueira e da lucidez. Dialético!
E agora a sua morte pesa, como o peso do possível, já que uma perda faz parte de qualquer jornada de qualquer ser vivo,
Sua perda é fato.
E sua obra um ganho infindo.

sexta-feira

Rápido



JAMAIS SABERÁS O QUE NÃO SABES
POIS NUNCA QUIS SABER
O QUE NÃO SOUBES...


quarta-feira

Inverno

"Nasceram flores num canto de um quarto escuro, mas eu te juro, são flores de um longo inverno..." 

Olha o inverno.
Sente o inverno.

Colhe uma gota do sereno.
Guarda no teu poro.

Ouve o vento.
Cheira o ar.

Ria para o tímido sol que se acomoda no azul...

Um chá aquece,
Um beijo também.
Leva muito tempo prá esquecer alguém...

Mais do que um inverno, talvez dois,
Se for mais de três,
Hora de trocar de estação dentro do coração...

Mas aqui, ainda é inverno.
E eu queimo...

quinta-feira

Pedaços de letra

"oi,
daqui desse lugar te mando o beijo do metrô,
único e sincero,
te mando uma tremenda sinceridade que diz muito com pouca coisa,
que diz coisa sem dar sentido e significado,
que diz,
pretente dizer que a paz começa a entoar um canto...
no entanto,
sou pouca coisa pra achar que entendo tudo isso
com esse tanto pouco de caracter....
beijo de sexta
de longen adoro sua presença perto !"



pedaço e metade do caminho.
breve momento compartilhado.
Te amo.

quarta-feira

Ampulheta

"Olhos fechados prá te encontrar..." 


Saí para ver o mar
E o que saltou aos olhos foi
espelho do céu
Da areia á água fui como grão,
filho do tempo, quase impalpável.
Na espuma, ressaca das ondas
Eu, grão era estrela
No infinito do teto azul
Ali, era nada.
Quando voltei, eu era nada...
Tirei dos pés o pó celeste,
reflexo de encantamento
Dos olhos tirei areia e virei
de novo a ampulheta
Meu mundo de cabeça prá baixo...



sábado

Contar essa história...

Hoje a Lili contou uma história:

Que em frente á sua casa, ou perto da sua casa, havia uma mangueira, bem grande onde as maritacas quando voltavam de suas viagens, ou passeios, ali paravam para descansar e se alimentar.
Então fizeram a merda de cortar a mangueira (que devia estar ali há anos!) para construir um prédio!
Imagine o que aconteceu: as maritacas voltaram e, não encontrando a mangueira começaram um canto triste, lamentoso, como se dissessem "onde está a árvore?" "cadê nossa mangueira?" como vamos comer, descansar agora"?


Arrancaram a mangueira e vão colocar no lugar um prédio.
De cimento, sem sentimento.
Só gente pensando em aumento...

Mundo insano...